21/11/08
A
crise poderá ser a solução para os
problemas da economia brasileira
Autor:
Yoshiaki Nakano
Valor Econômico - 18/11/2008
Entre
os erros humanos documentados empiricamente pela psicologia
temos a tendência do ser humano ser otimista e confiante.
Estes fatos são estudados pela chamada "economia
comportamental". Assim, é "normal"
que as previsões econômicas tendam a este
viés otimista e que sejam, posteriormente, ajustadas
para convergir com as previsões chamadas "pessimistas".
Os economistas brasileiros estão prevendo que o
crescimento da economia brasileira em 2009 será
de cerca de 3,0%. Os pessimistas prevêem crescimento
de 2,0%. Com a divulgação das informações
sobre o desenrolar da crise, haverá revisões
para baixo e o crescimento de 2,0% passará a ser
a taxa "otimista". A duração da
crise financeira e da contração econômica
deverá ser mais prolongada do que gostaríamos
de admitir.
É
com este quadro de recessão ou forte desaceleração
em 2009 e 2010 que temos que conviver e avaliar as medidas
de política econômica. Se crescermos 5,2%
este ano, a desaceleração no crescimento
do PIB deverá ser de mais de 3% em 2009 e em 2010.
A demanda agregada deverá sofrer uma contração
maior ainda. A despesa de consumo das familias, que vinha
crescendo em torno de 7%, deverá sofrer redução
nos próximos meses, pois a oferta de crédito,
que vinha crescendo mais de 30%, já sofreu forte
redução, com simultânea elevação
da taxa de juros, e o nível de emprego já
dá os primeiros sinais negativos. Da mesma forma,
os investimentos produtivos que vinham crescendo mais
de 15% deverão sofrer contração mais
forte ainda pois são mais sensíveis ao quadro
de grande incerteza e de paralisia no sistema de crédito.
Os dados recentes de exportações são
ainda mais preocupantes, pois aqui se associam a paralisia
no crédito externo, a violenta queda no preço
das commodities e uma recessão global muito mais
profunda do que esperado. A depreciação
do real deverá ter efeitos positivos nas exportações,
mas sabemos que esta só responde com um lag que
poderá ser de dois anos. As importações,
que estão do lado da oferta agregada, deverão
ter forte queda já que se ajustarão à
queda na demanda agregada. Esta queda atuará como
freio na redução no nível de atividade
interna, mas é importante lembrar que seu efeito
doméstico depende também da taxa de câmbio,
que sofreu forte depreciação - da ordem
de 40% - e isto atuará negativamente subtraindo
demanda agregada, neutralizando aqueles efeitos positivos.
Quais as consequências desta forte desaceleração
na demanda agregada sobre a economia brasileira? O que
à primeira vista parece ser uma tragédia,
poderá ser bastante benéfico para o futuro
da economia brasileira. Na verdade, podemos dizer que
ela antecipa, em alguns anos e de uma forma favorável,
ajustes que teríamos que fazer num futuro próximo
com custos muito mais elevados se a crise financeira não
tivesse ocorrido.
De fato, a economia brasileira vinha crescendo nos últimos
anos a uma taxa mais acelerada após 25 anos de
semi-estagnação. Mas a transição
para a nova trajetória de crescimento vinha apresentando
alguns problemas: 1) elevado patamar da taxa de juros
vinha provocando a apreciação do câmbio
e consequente elevação dos salários
reais gerando um excesso de demanda expresso no crescimento
explosivo do déficit em transações
correntes; 2) o rápido crescimento da economia
mundial e a especulação financeira vinham
excedendo forte pressão sobre o preço do
petróleo, metais e alimentos gerando uma inflação
mundial; 3) o excesso de liquidez global vinha gerando
"boom" de entrada de capitais com forte pressão
sobre os preços dos ativos financeiros e imóveis
com geração de bolhas especulativas, como
na bolsa de valores; e 4) o crescimento de mais de 30%
na oferta de crédito ao consumidor, por sucessivos
anos, levava a antever crise de inadimplência.
Neste quadro, o governo Lula vinha reagindo apenas ao
problema da inflação com elevação
dos juros, mas com política fiscal frouxa. Esta
política estava agravando o problema da apreciação
cambial e, ao estimular a entrada de capitais do exterior,
não dava sinais de ser capaz de controlar a excessiva
expansão do crédito nem de evitar bolhas
especulativas. Assim, no curto prazo, a elevação
da taxa de juros traria, com certeza, uma desaceleração
no crescimento econômico e deterioração
das contas fiscais com elevação da dívida
pública. No médio prazo, era previsível
que a excessiva apreciação do real e o explosivo
crescimento do déficit em transações
correntes terminariam numa crise de balanço de
pagamentos. Ainda, poderia ser agravada com uma crise
financeira interna em função do excessivo
crescimento do crédito e das bolhas financeiras.
A verdade é que a crise financeira internacional
seguida da contração no crédito,
depreciação da taxa de câmbio e recessão,
iniciou um forte ajuste na economia brasileira que poderá
resolver ou encaminhar os problemas listados acima. A
depreciação cambial, num quadro recessivo,
é ideal pois neutraliza a inflação
e permite um ajuste nas transações correntes
retirando do horizonte problemas futuros com balanço
de pagamentos. As fortes contrações no crédito
e na demanda agregada associados à grande queda
nos preços do petróleo e das commodities
tem sido de tal magnitude que vêm reduzindo e neutralizando
os efeitos inflacionários da depreciação
da taxa de câmbio. Simultaneamente, os problemas
da excessiva valorização de ativos e da
expansão de crédito também desapareceram.
Ao contrário, a grave crise de liquidez internacional
e a contração doméstica de crédito
é de uma magnitude não vista desde a crise
de 30 e requer medidas mais agressivas do Banco Central
de ampliação da liquidez e, certamente,
ele será obrigado, num futuro próximo, a
novas reduções no depósito compulsório
e na taxa de juros, para evitar um colapso maior no nível
de emprego.
Assim, a crise financeira está fazendo os ajustes
necessários e trouxe para o Brasil uma grande oportunidade
de eliminar anomalias como uma taxa de juros excessivamente
elevada. Como a taxa de juros é muito elevada,
a crise de liquidez abriu muito espaço para sua
redução a fim de evitar recessão
econômica mais grave e sem impactos inflacionários.
É a grande oportunidade para que nossos juros convirjam
para níveis internacionais. Como há grande
espaço para redução na taxa de juros
e a ampliação na liquidez é imperativa,
não cabem medidas de estímulo fiscal no
Brasil. Seria um erro, pois só a austeridade fiscal
daria sustentação no longo prazo ao novo
patamar de juros. Se a combinação da política
macroeconômica for sábia, a crise financeira
num golpe abre possibilidade do Brasil ter estabilidade
e retomar crescimento com vigor como nos quatro últimos
anos. Estabilidade e moeda forte só é possível
com equilíbrio fiscal e nas transações
correntes. Isto é, com baixas taxas de juros consistentes
com taxa de câmbio estável e competitiva.
Juros altos e câmbio apreciado são sinais
de desequilíbrio, instabilidade e resultam em baixo
crescimento.
Yoshiaki Nakano, ex-secretário da Fazenda do governo
Mário Covas (SP), professor e diretor da Escola
de Economia de São Paulo da Fundação
Getulio Vargas - FGV/EESP, escreve mensalmente às
terças-feiras.