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02/06/2010
A construção civil e a edificação de um país
Por Guido Heleno
Um estudo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), realizado em 2007, indicava que a construção civil residencial iria liderar o ranking dos investimentos no Brasil, nos quatro anos seguintes, com praticamente metade do total a ser investido no país. À época, do total de R$ 1 trilhão de investimentos programados em 16 setores da economia, 46,6%, ou seja, R$ 466 bilhões estavam previstos para a construção de moradias, segundo o levantamento “Perspectivas de Investimentos 2007/2011” do BNDES. O quadro favorável, de acordo com as análises do citado estudo se devia à estabilização da economia brasileira, ao maior volume de crédito imobiliário, com a redução das taxas de juros e à grande falta de moradias no país. Atestando as sinalizações do estudo do BNDES, o setor da construção civil fechou 2009 com
forte desempenho, esperando um crescimento ainda maior para este 2010, sempre acima do
PIB nacional.
Esse otimismo espelha-se também na Sondagem da Construção Civil, promovida pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e realizada no início de 2010 junto a 335 empresas, variando de pequeno, médio e grande porte. Segundo a sondagem, a maioria dos empresários do setor está confiante e com perspectivas positivas para este ano. Analisando o ritmo de crescimento da construção nos últimos anos e confrontando com a realidade de um país com sério déficit habitacional e ainda com graves problemas de infraestrutura, fica fácil concluir que há muito por se fazer. Aeroportos, portos, estradas, hidrelétricas, barragens, parques industriais, empreendimentos turísticos, estes são alguns dos desafios – entenda-se por oportunidades – para a construção civil, que além de nicho relativo a moradias, tem muitas outras possibilidades de atuação.
“As regiões Sul e Sudeste representam o grande nicho de crescimento setorial da construção civil”
Ritmo regional de crescimento
O sonho da casa própria para milhões de brasileiros está se tornando realidade. Segundo dados divulgados no início do ano pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon- SP), assim como pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), em novembro de 2009 ocorreu um novo recorde na contratação para a construção civil, chegando o setor com o expressivo número de 2.351 milhões de empregados no país. Além desse recorde, divulgou-se que a região Nordeste foi onde ocorreu o maior número de trabalhadores naquele mês, certamente com a indústria do turismo contribuindo, em muito, para esses dados expansionistas, a tendência é de que o setor, neste ano de 2010, alcance um crescimento de 8%, o que representa 2,4 milhões de postos de trabalho com carteira assinada.
“A infraestrutura é o setor da construção civil que responde por quase 18% da produção industrial no país”
Para Rogério Oliveira Dias, Diretor Comercial da Lopes Royal, com décadas de experiência no setor imobiliário, o mercado imobiliário nacional tem tudo para continuar crescendo em 2010. Segundo ele, o ano de 2009 foi um ano de muita desconfiança, principalmente no primeiro semestre, devido à crise mundial, mas que já no segundo semestre ocorreram sinais de plena recuperação. “As razões que justificam esse crescimento são muitas, tais como: a expansão do crédito, a estabilidade econômica, o programa Minha Casa Minha Vida e o alto déficit habitacional. No Distrito Federal o período de desconfiança em 2009 foi curto e, conseqüentemente, não tivemos muito a que recuperar. Por isso o mercado local cresceu tanto em comparação aos demais estados”, afirma Rogério Silva.
Certamente a afirmação de Rogério se consubstancia em sua experiência em Águas Claras, tido como um dos maiores canteiros de obras da América Latina, um setor de notável expansão na Capital Federal e ao qual está vinculado desde o princípio. “As pessoas que atuam no Mercado Imobiliário local, e que já conhecem Águas Claras, já entenderam que a cidade virou uma referência, ou seja, quando se pensa em comprar um imóvel, se pensa em Águas Claras. Já as pessoas que não conhecem Águas Claras, ainda que pessoas experientes e acostumadas a atuar em outras capitais, custam a entender como se consegue vender tantos imóveis e com tanta velocidade em um local com tanta oferta. O fato é que a procura tem sido maior que a oferta, razão pelo qual o estoque de unidades em construção é cada vez menor e os preços têm subido tanto”, conclui Rogério de Oliveira Silva.
Além do caso de Águas Claras, em Brasília e de outras iniciativas em todo o Distrito Federal e a região do entorno, a expansão da construção na região Centro-Oeste, a segunda região em extensão territorial, tem sido notável nas últimas duas décadas, devendo-se considerar nesse expansionismo da construção civil não só o natural crescimento populacional nos três estados: Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul e no Distrito Federal – mas fatores como a sistemática e contínua migração de empreendedores rurais do Sul do país, abrindo novas fronteiras agrícolas e, paralelamente, instalando-se com seus familiares em cidades da região. O destaque de produção de alimentos – notadamente produtos da agropecuária e grãos como soja – tem levado à expansão da construção civil na região Centro-Oeste, até mesmo pela demanda dos agronegócios e de infraestrutura de escoamento da produção, em estradas, sistema de armazenamento de safras etc.
Quanto às informações sobre a expansão da construção civil no Nordeste, elas são bastante promissoras. Exemplo disso é uma privilegiada área do litoral baiano. Segundo informações da empresa Climatempo, na Costa do Sauípe, ao norte de Salvador (BA), surge o que já está sendo chamado de o novo eldorado do turismo nacional, com condições de conquistar brasileiros que hoje se hospedam em resorts no Caribe. Rotulado de o maior complexo turístico da América do Sul, uma vez que no final da primeira etapa de implantação, os turistas contarão com cinco mil quartos à disposição, em cinco hotéis diferenciados e seis pousadas. O Fundo de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil (Previ) responde por 96,10% dos investimentos desta primeira fase. Os 3,9% restantes pertencem à própria Odebrecht, responsável pelas obras e proprietária da
Fazenda Sauípe, com nada menos que 1.682,79 ha. Juntos, o fundo e a construtora, formam a Sauípe S/A. Os cinco hotéis e seis pousadas desta primeira fase somam 1.650 módulos/quartos. Um campo de golfe com 18 buracos oficiais e três de treinamento, cujo padrão é desde já comparado ao dos melhores do mundo, é o destaque esportivo do Sauípe. Ainda no campo esportivo, o complexo contará com um clube equestre, clube de tênis e complexo esportivo com quadras poliesportivas, campo de futebol society e quadras de paddle (uma variação do squash).
A expansão da construção civil no Nordeste se espalha por todos os demais estados da região. Comprova-se isso pelos dados em relação à incorporação de contingente de trabalhadores no setor, considerando o 2º semestre de 2009 como base, indicando que Recife, com 17,8%, foi a capital brasileira que, proporcionalmente, mais absorveu mão-de-obra, ficando Belo Horizonte em 2º lugar com 15,75% e o Distrito Federal em 3º, com o índice de 10,5%. Certamente que as regiões Sul e Sudeste continuam representando o grande nicho de crescimento setorial da construção civil. Já em 2007, segundo dados do Sindicato da Construção Civil e da Fundação Getúlio Vargas, a região experimentava um crescimento acima da média, o que se comprova pela expressiva e proporcional contratação de trabalhadores com carteira assinada para o setor. Ainda segundo o Sindicato e a FGV, nacionalmente, 2010 deverá registrar um aumento de 8% de contratações para a construção civil e a região Sul terá grande papel no crescimento desse número, mesmo em um ano eleitoral.
A região Norte vem apresentando significativa demonstração de crescimento nas últimas décadas. Afinal, foi nessa região que se construiu a mais recente capital de um estado brasileiro, no caso Palmas, em Tocantins. Registra-se que esse estado vem conseguindo índices notáveis de crescimento, com 3,53%, contra uma variação média nacional de 0,34%, segundo aponta o levantamento feito pelo IBGE. Se até agora as obras públicas tiveram significativo peso nessa parcela de crescimento, é esperado que empreendimentos privados passem a avançar gradativamente, com grandes perspectivas de expansão em Tocantins.
Considerado o terceiro parque industrial do Brasil, Manaus destaca-se na região Norte pelas suas boas perspectivas para a construção civil. A implantação de mais duas fábricas de cimento e possibilidades de poder assumir um papel importante no Cone Norte da América do Sul, tendendo aos mercados da Venezuela, Peru, Bolívia e Colômbia, além de estar com um pé no Equador. Apesar das enormes distâncias a serem vencidas, não só geográficas, a região Norte pode ter nesta década seu mais alto índice de crescimento no campo da construção civil.
Um olhar atento sobre o território nacional permite concluir que um dos fatores que vêm impulsionando o setor da construção civil é o programa Minha Casa, Minha Vida, pelo qual se pretende viabilizar a construção de um milhão de moradias para famílias com renda de até 10 salários mínimos, destacando-se que só o Governo Federal está investindo R$ 34 bilhões para que
mais brasileiros tenham acesso à casa própria. Trata-se de uma iniciativa que conta com a parceria
de estados, municípios, iniciativa privada e da própria sociedade. E o direito à moradia decente é previsto na Constituição Cidadã de 1988.
Oportunidades e obstáculos
Com dados favoráveis e exemplos significativos de expansão, no entanto, nem tudo são flores no caminho da construção civil brasileira. Há muito temor quanto ao encarecimento progressivo do transporte dos materiais de construção, grande variação nos preços dos produtos, indisponibilidade de mão-de-obra qualificada, encargos e burocracia. Há queixas também do empresariado do setor quanto à burocracia ou demora na aprovação de grandes obras, como hidrelétricas, principalmente quanto à análise dos impactos ambientais. Os empresários do segmento de transportes alegam que o encarecimento do frete se deve, na maioria das vezes, às péssimas condições das estradas, um problema de infraestrutura, o que poderia ser visto como um ciclo vicioso. Apesar desses obstáculos, a infraestrutura é o setor da construção civil que responde por quase 18% da produção industrial no país, sendo a mesma puxada pelo forte aumento na construção de imóveis, representando por, aproximadamente, 25% do setor. Quando se constrói uma vila residencial, esta vai exigir naturalmente a abertura e asfaltamento de estradas, implantação de rede elétrica, de esgotos, áreas de estacionamento, calçadas, parques etc.
Alguns analistas atribuem à área de infraestrutura a responsabilidade por metade da ocupação da construção civil, admitindo que o setor esteja sendo impulsionado com a implementação dos projetos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Independente do programa governamental, todos pressentem que infraestrutura será nesta década o setor da construção civil com maiores chances de crescimento. Basta lembrar que temos um horizonte de megaeventos esportivos como a Copa do Mundo de Futebol em 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro, remetendo compulsoriamente à necessidade de investimentos em infraestrutura, desde o saneamento básico até a melhoria dos sistemas de transporte, aeroportuário e energia o que, segundo a Câmara Brasileira da Construção Civil (Cbic) vai exigir a injeção de cerca de US$ 130 bilhões a serem aplicados em infraestrutura nos próximos seis anos.
Os fatores educacional e profissional
Outro ponto de estrangulamento identificado na construção civil refere-se à falta de mão-de-obra qualificada, principalmente para permitir a incorporação de avanços tecnológicos na modernização da construção civil brasileira. Se em 2009 o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), em São Paulo, formou 38 mil trabalhadores para a construção civil, em 2010 a meta é formar 60 mil novos trabalhadores, o que a própria instituição reconhece ser um número aquém da necessidade do mercado. Aliás, o Senai vem modernizando-se em sua ação educativa e já oferece mais de 200 cursos, dos mais variados, na modalidade de ensino a distância. Com essa possibilidade, ao invés do aluno se deslocar aos locais dos cursos presenciais – metodologia tradicional – são os conteúdos educativos que chegam até o treinando, via modernas tecnologias educativas, lançando-se mão das mais modernas mídias, como a internet, televisão, CDs, DVDs etc.
Nesse quadro de preocupações, incertezas, possibilidades e desafios há uma clara sinalização de que a construção civil está em franca expansão, com modernidade e exigindo novos perfis de profissionais para atuarem em seus quadros. Administradores, com foco nesse segmento, é um desses profissionais. Um especialista requisitado pelo mercado é o tecnólogo em construção de edifícios, cuja formação exige de três a quatro anos. Trata-se de um profissional com uma sólida formação técnica aliada à capacidade de adaptação às mudanças no sistema de produção dessa indústria. Para melhor exercer seu papel, o tecnólogo em construção civil deve reunir uma gama de conhecimentos específicos que deverão ser utilizados em uma ação macro. E a construção civil é um ambiente macro, no qual atuam profissionais de curso superior – engenheiros, arquitetos, decoradores, paisagistas, projetistas etc. – além de trabalhadores especializados em construção civil – mestre de obras, eletricistas, bombeiros hidráulicos, pintores e tantos outros profissionais. Certamente esse tecnólogo deve incorporar noções básicas de gestão e administração para que toda obra seja vista como um desafio que terá que ser vencido dentro de um prazo otimizado, com o melhor uso dos recursos, em harmonia com o meio ambiente e considerando a integridade física de todos os trabalhadores envolvidos.
Produto de exportação
Há muito tempo, as construtoras brasileiras têm um pé fora do país, dado ao seu know-how e pela prática em execução de grandes obras no Brasil. Na década de 70 era significativa a atividade de construtoras brasileiras no exterior, particularmente na África e no Oriente Médio. Nesses 40 anos, a exportação desse serviço, pela competitividade brasileira, não tem agradado a países de economias fortes, como os Estados Unidos, que já chegou a orquestrações que dificultassem esse avanço. Exemplo disso foi, em 1984, uma campanha que conseguiu fazer com que o Congresso dos EUA atuasse firmemente para estancar financiamentos pelo Banco Mundial para obras brasileiras em países andinos, usando pela primeira vez uma argumentação ligada à proteção ambiental para suspender uma operação financeira.
Há cinco anos, a soma dos projetos no exterior da Camargo Corrêa, Norberto Odebrecht, Andrade Gutierrez e MRV Engenharia, atingiam a cifra de US$ 4,74 bilhões, graças à atuação em países como Estados Unidos, México, Venezuela, Suriname, Peru, Panamá, Bolívia e Portugal. Naquele ano, quando os serviços da construção civil movimentaram no mundo US$ 400 bilhões, a participação das construtoras brasileiras representava apenas 1,5% daquele montante.
Com maior transparência, expansão da mídia e ação mais firme da Organização Mundial do Comércio (OMC), atualmente os principais elementos que pesam nessa expansão no exterior é preço, qualidade e cumprimento de prazos. Como a demanda interna tem sido grande, com estabilidade econômica e maior segurança no próprio país, muitas construtoras têm preferido lançar seus olhos para o próprio mercado brasileiro.
Atualmente uma preocupação tem unido empresas rivais no canteiro de obras, principalmente aquelas com atuação no exterior. Juntas, elas se articulam para derrubar uma ameaça a seus negócios: um projeto de lei que proíbe o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) de financiar obras fora do Brasil. Essas construtoras, estimuladas pelo governo em sua política de ocupação comercial da América Latina e da África, estão construindo hidrelétricas, portos e metrôs em outros países, com financiamento do BNDES.
“A massa de trabalhadores sem qualificação requer políticas públicas de combate a essa exclusão”
O papel social
Se nesta primeira quinzena de abril a tragédia ocorrida no Rio de Janeiro, em decorrência de desmoronamentos ocorridos em favelas, fez com que este problema social ligado à moradia ganhasse espaço nos principais veículos de comunicação do Brasil e do mundo, o fato serviu para
reflexões e, espera-se, que gere imediatas ações no sentido de que governantes e sociedade encarem com mais seriedade e agilidade a questão do desfavelamento.
O segmento da construção civil tem que ser visto, não apenas como uma indústria que absorve um grande número de trabalhadores, que impulsiona a economia de um país ou gera lucros para quem investe no setor. A construção civil, necessariamente, é um instrumento da sociedade capaz de gerar conforto e segurança. A construção e/ou reforma de estabelecimentos de ensino dão suporte às ações educativas. Adequados prédios hospitalares garantem a saúde. Dessa maneira, pode se enxergar todo agrupamento social pelo suporte físico e de infraestrutura que permitem a vida em sociedade. Como a questão da moradia é uma prioridade, os investimentos na construção civil não devem ser apenas em edificações com materiais e técnicas tradicionais. É preciso investir em pesquisas que possibilitem baratear o custo das moradias, lançar mão de materiais alternativos e buscar processos de edificação que permitam também agilização no tempo de construção.
Uma área que demandará muito investimento, exigindo parcerias dos governos federal, estaduais e municipais, além de parcerias com a iniciativa privada, será a da urbanização das favelas ou eliminação de áreas de riscos, principalmente por inundações e desmoronamento. Só no Rio de Janeiro, dentro do PAC, em uma parceria do governo federal e estadual, estão sendo investido cerca de R$ 1 bilhão, em obras que vão desde saneamento básico e construção de moradias, à pavimentação de ruas e instalação de postos de saúde e de polícia. Essa urbanização irá melhorar as condições de vida dos cerca de 300 mil moradores das favelas da Rocinha, do Complexo do Alemão e de Manguinhos. Se pensarmos no número de cidades brasileiras com problemas de favelas desumanas e de áreas de riscos para moradores em encostas, habitantes em moradias precárias, palafitas ou habitando áreas sujeitas a inundações, teremos uma idéia de quão vasto é o problema, uma vez que eles não são restritos às capitais estaduais, mas estão presentes em grande parte de cidades interioranas.
A solução de todos esses problemas sociais, também encontráveis em zonas rurais, passa necessariamente pela construção civil. Muito além de exigir apenas investimentos, é preciso conscientização de toda a sociedade, uma participação cidadã de todos. Para que tudo ocorra, é preciso percorrer os necessários caminhos do planejamento, nos quais a Ciência da Administração é peça fundamental.
Fonte :Revista Brasileira de Administração
Edição 75
Março/abril 2010 |